É da Nossa Conta! debate segurança pública na Bahia: O equilíbrio entre a inteligência estratégica e o “gargalo” salarial
A segurança pública baiana vive um momento de dualidade. Se, por um lado, os investimentos em tecnologia e inteligência têm asfixiado financeiramente o crime organizado, por outro, os profissionais na ponta enfrentam uma realidade histórica de desvalorização salarial.
Este cenário foi o tema central episódio do podcast É da Nossa Conta! que foi ao ar nesta segunda-feira (04), com um amplo debate entre o apresentador Paulo Cavalcanti e Eustácio Lopes, presidente do Sindicato dos Policiais Civis da Bahia (SINDPOC), reeleito com 97,6% dos votos.
A amarga 27ª posição salarial
Segundo o convidado, apesar do diálogo estabelecido com a atual gestão estadual, a remuneração dos policiais civis da Bahia ainda é um ponto crítico. Eustácio revelou dados alarmantes sobre o ranking nacional: “Os delegados são 27º e nós, a base, somos o penúltimo… o menor salário de delegado é o da Bahia e a base (investigadores e escrivães) é o 26º, ganhamos apenas da Paraíba”.
Paulo destacou que a organização social é a única forma de reverter esse quadro, afirmando que “no Estado Democrático de Direito não se pode imaginar o exercício de cidadania com um cidadão isolado… ele não vai conseguir representar o que em ciência política chamamos de grupo de pressão”.
A estratégia dos “três Is”
A mudança de patamar na operacionalidade da segurança, segundo Eustácio, deve-se à gestão do secretário Marcelo Werner, pautada em três pilares: Integração, Investimento e Inteligência.
Como apontou Eustácio, pela primeira vez em anos, a Bahia registrou uma queda de dois dígitos no número de homicídios.
“O que freia o intento criminoso não é a dureza da pena, mas a certeza de que será identificado e preso”, explicou Eustácio, citando a lógica de Marquês de Beccaria para defender o fortalecimento da investigação.
Ele detalhou que a inteligência tem mirado “alvos relevantes”, resultando em mais de 300 prisões de líderes de facções e no bloqueio de R$ 13 bilhões do crime organizado.
Asfixia financeira e combate à lavagem de dinheiro
Um dos destaques da atuação recente foi a Operação Primos, que resultou no fechamento de mais de 200 postos de gasolina que serviam ao PCC na Bahia.
Além disso, a polícia agiu contra a lavagem de dinheiro até em áreas de lazer, como no Carnaval. “Nós fechamos um camarote que era um camarote de lavagem de dinheiro… uma investigação muito relâmpago que conseguiu mostrar a finalidade daquele espaço”, relatou o presidente do SINDPOC.
Educação e Cidadania como base
Para Paulo Cavalcanti, a solução a longo prazo não depende apenas de armas e viaturas, mas de uma reforma na base da sociedade. “A segurança pública passa por investimentos em educação pública, por legislação que dê segurança aos policiais e pela participação ativa de toda a sociedade”.
Ele defende que o cidadão entenda seu papel: “Você é o Estado, você está esquecendo? O Estado é esse conjunto de cidadãos que têm responsabilidade por esse grande condomínio chamado Brasil”.
O desafio para 2026
Com o cenário de 2026 no horizonte, a valorização do “capital humano” surge como a pauta inegociável. Eustácio finalizou pontuando que a Bahia possui os melhores equipamentos do mundo, como fuzis e pistolas modernas, mas carece de reconhecimento para quem os opera.
“Falta o governo trazer a Polícia Civil da Bahia para os principais salários do país, acompanhando a economia do estado”.
Paulo encerrou reforçando o apoio à categoria: “A sociedade civil organizada está junto com vocês… precisamos assumir a autoestima cidadã e o sentimento de pertencimento”.