“O lugar onde a gente mora não nos define. O que nos define é aquilo que a gente busca.”
A frase acima foi pronunciada por Eliana Silva, uma das mulheres do Subúrbio Ferroviário de Salvador acolhidas pelo Projeto Marsúpio, durante encontro com o ministro do Empreendedorismo, no Sebrae Bahia, nesta semana. Em poucas palavras, ela expressa uma verdade que representa milhões de brasileiros: nossa origem pode explicar o ponto de partida, mas não determina o nosso destino.
A verdadeira transformação econômica e social começa quando uma pessoa reconhece o próprio valor, descobre suas capacidades e percebe que existem oportunidades que também lhe pertencem. Esse é o despertar da autoestima cidadã.
É quando o indivíduo deixa de se enxergar apenas como inquilino do Brasil e compreende que é um dos donos desta nação, com uma fração do poder e uma parcela de responsabilidade sobre aquilo que precisa ser construído ou transformado.
Nesse processo, ele se reconhece em três dimensões:
– Como cidadão social, compreende seus direitos, seus deveres e sua responsabilidade com a família, a comunidade e as pessoas ao seu redor.
– Como cidadão econômico, reconhece que o seu trabalho gera renda, sustenta famílias, movimenta a economia e produz riqueza. Mesmo atuando na informalidade, possui conhecimentos, experiências e capacidade produtiva.
– Como cidadão político, percebe que pode participar das decisões, acompanhar as políticas públicas, cobrar eficiência e contribuir para mudar aquilo que considera injusto ou ineficiente.
Quando essas três dimensões se encontram, surge o *cidadão consciente*: alguém que transforma pertencimento em responsabilidade e consciência em atitude. É o despertar do eu responsável, do eu atitude e do eu transformador.
O empresário raiz
Todos os dias, milhões de brasileiros trabalham e produzem sem se reconhecerem como empresários. São vendedores, costureiros, cozinheiros, pedreiros, eletricistas, artesãos, agricultores, profissionais da beleza, da cultura, do comércio, dos serviços e de tantas outras atividades.
Nós os chamamos de empresários raiz. Assim como Eliana, são pessoas que começaram, muitas vezes, por necessidade, com poucos recursos, sem orientação e fora das estruturas formais, mas que, ainda assim, possuem saberes adquiridos pela experiência e o direito de brotar, criar raízes, crescer e frutificar.
O empresário raiz pode ser homem ou mulher. Pode estar no Subúrbio Ferroviário de Salvador, na periferia de uma metrópole, em uma comunidade rural ou em qualquer município brasileiro. Embora a formalização, a capacitação, o crédito e o acesso ao mercado sejam fundamentais, existe algo que precisa acontecer antes: a pessoa deve acreditar que é capaz de crescer e reconhecer os caminhos para isso.
Foi com essa compreensão que a Fundação Paulo Cavalcanti criou o Projeto Marsúpio e desenvolveu o seu aplicativo. Além de oferecer serviços, a proposta é acolher o empresário raiz, fortalecer sua autoestima cidadã e acompanhá-lo em sua jornada de desenvolvimento. Não é apenas entregar o peixe, oferecer a vara ou ensinar a pescar. Trata-se de acolher a pessoa, ajudá-la a reconhecer o seu potencial e permanecer ao seu lado até que possa caminhar com segurança e autonomia.
Inspirada no canguru, que protege e acompanha uma vida em formação, o projeto Marsúpio também busca evitar que o empreendedor informal enfrente sozinho ambientes burocráticos, fiscalizadores, financeiros e tecnológicos que ainda não conhece.
E nenhuma instituição fará isso sozinha. A informalidade possui causas econômicas, educacionais, sociais e culturais. Por isso, não será superada pela atuação isolada de uma única organização.
A Fundação Paulo Cavalcanti reúne a concepção do projeto, a tecnologia e a experiência adquirida na aplicação dos serviços. A Associação Comercial da Bahia aproxima o empresário raiz do associativismo e do ambiente produtivo. O Sebrae oferece conhecimento, capacitação e instrumentos fundamentais para a formalização e o desenvolvimento dos pequenos negócios.
As associações comerciais e as entidades da classe produtiva, presentes em todo o país, conhecem as realidades locais e podem identificar, mobilizar e acompanhar esses trabalhadores. O Estado, por meio de políticas públicas eficientes, deve ampliar o acesso à educação, à tecnologia, ao crédito e ao mercado, além de reduzir as barreiras que mantêm milhões de brasileiros na informalidade.
Instituições financeiras, universidades, empresas e organizações sociais também podem contribuir com conhecimento, tecnologia, financiamento responsável e oportunidades.
Não precisamos duplicar estruturas ou disputar espaços; basta apenas unir o que cada organização sabe fazer e construir uma rede de acolhimento capaz de chegar onde as oportunidades ainda não chegaram.
Da experiência local a uma dimensão nacional
O trabalho iniciado com as mulheres do Subúrbio Ferroviário demonstrou que o Marsúpio pode alcançar uma dimensão muito maior, e acolher homens, mulheres, jovens e adultos de qualquer atividade econômica e em todas as regiões do Brasil. O aplicativo amplia o alcance, enquanto as associações comerciais, as entidades produtivas, o Sebrae, as organizações sociais e o poder público formam uma rede presencial de orientação e apoio.
Mas nenhuma tecnologia ou política pública produzirá transformação duradoura se o cidadão não desenvolver consciência, pertencimento e confiança em sua própria capacidade.
Por isso, o Marsúpio também é um projeto de educação cívica. Antes de administrar uma empresa, a pessoa precisa reconhecer que é capaz de construí-la. Antes de buscar crédito, precisa compreender a responsabilidade de utilizá-lo. Antes de cobrar o Estado, precisa saber que os recursos e os serviços públicos também lhe pertencem.
Eliana não falou apenas por si; falou por milhões de brasileiros que ainda precisam descobrir a dimensão da própria capacidade.
O lugar onde vivemos pode ser o nosso ponto de partida. Mas o que definirá a nossa trajetória é aquilo que buscamos, a consciência de quem somos e a coragem de assumir o poder que sempre nos pertenceu.
O futuro do Brasil é da nossa conta. E ele começa agora.
Pau na Máquina!