É da nossa conta!: Victor Ventin e Paulo Cavalcanti debatem o custo da hostilidade e a sobrevivência do setor produtivo no Brasil

Por: Fundação Paulo Cavalcanti

02/06/2026

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No episódio mais recente do podcast “É da nossa conta!”, que foi ao ar nesta segunda-feira, 01 de junho, o apresentador Paulo Cavalcanti recebeu o renomado empresário Victor Ventin. Terceira geração à frente de marcas como Café América e Macarrão Brasil, fundadas por seu avô em 1914, Ventin, que presidiu a FIEB entre 2008 e 2010 e hoje atua como conselheiro da Associação Comercial da Bahia (ACB), trouxe uma visão crítica e comparativa sobre o ambiente de negócios global.

A conversa não foi apenas um relato biográfico, mas um manifesto em defesa de quem produz riqueza em um país que, segundo os debatedores, ainda enxerga o empreendedorismo com desconfiança e hostilidade.

Uma comparação entre Brasil e Estados Unidos

Um dos pontos mais contundentes da entrevista foi a análise de Ventin sobre a diferença abissal entre operar uma indústria no Brasil e no exterior. Ao relatar sua experiência com uma empresa de transformação de cacau nos Estados Unidos, iniciada em 2003, o empresário destacou a clareza do sistema tributário americano em oposição à “obscuridade” brasileira. Ventim explicou que, enquanto nos EUA o imposto é pago apenas pelo consumidor final de forma transparente, no Brasil o setor produtivo é “espoliado a impostos sucessivos de natureza elevada”.

Ele detalhou a lógica da transparência: “O consumidor lá sabe que tá pagando 8% sobre o chocolate que ele comprou. Exige, fiscaliza e cobra… aqui pagamos 34% e ninguém sabe porquê ou pelo menos o consumidor não é alertado nota a nota”.

Para Ventin, essa falta de clareza é um mecanismo que desestimula a cidadania, pois o brasileiro não percebe o peso do Estado em seu consumo diário. “O capital não fica onde é maltratado. Ninguém fica onde é maltratado. Se você vai em qualquer lugar ninguém fica, nem padaria, cinema, ninguém fica. E o empresário está sendo maltratado no Brasil”, sentenciou o ex-presidente da FIEB, apontando que a insegurança e os custos invisíveis, como o uso de carros blindados, funcionam como um imposto extra: “Meu carro aqui é blindado e isso é um imposto… porque a segurança não me é suficiente aqui”.

Outro entrave discutido foi a justiça do trabalho, classificada por Ventin como uma “outra invenção brasileira que não existe em qualquer país do mundo civilizado e economicamente desenvolvido”. Ele argumentou que a relação deveria ser regida pela justiça comum, onde ambos os lados possuem igualdade de deveres, ao passo que, no Brasil, o empresário enfrenta uma “franca desigualdade”, tendo que provar sua inocência diante de narrativas que muitas vezes carecem de base real.

A falta de representatividade política e o mito do “Empresário Vilão”

Paulo Cavalcanti aprofundou o debate ao questionar a imagem do empresário na democracia brasileira. Ele observou uma contradição: o cidadão de 18 anos é considerado plenamente capaz para votar, casar e contrair dívidas, mas, ao entrar em uma relação de trabalho, é tratado pelo Estado como alguém que precisa de tutela constante. “O cidadão brasileiro, quando ele se vê de fronte de um empresário, ele aí passa a ser vulnerável e tem que ser tutelado pelo Estado porque o empresário é o demônio, o cara que vai explorar ele”, provocou Cavalcanti, classificando essa visão como um absurdo que alimenta a dependência estatal.

Ventin concordou, acrescentando que essa narrativa de “luta de classes” é alimentada por políticos demagogos e prejudica a economia nacional. Para ele, a solução passa obrigatoriamente por uma ocupação estratégica de espaços no Legislativo.

“Nós, empresários, precisamos talvez investir mais na política. O agro investiu e tem sofrido um pouco menos. As religiões, as igrejas também investiram e sofreram um pouco menos. Mas todos os aumentos de impostos econômicos foram aprovados pelo Congresso. Nós não temos defesa no Congresso”.

A discussão também tocou em temas sensíveis como a redução da jornada de trabalho. Ventin alertou que medidas populistas, sem contrapartida de produtividade ou redução de encargos pelo governo, são ilusórias. “A geladeira vai piorar porque os custos empresariais vão subir e os custos dos produtos vão subir. Nada nesse mundo é grátis”, afirmou, lembrando que o governo arrecada recordes, mas não entrega eficiência.

Ao final, a mensagem foi de resiliência e a necessidade de uma “campanha nacional pela autoestima cidadã produtiva”. Cavalcanti e Ventin reforçaram que, apesar do ambiente hostil, é preciso “reagir” e lutar pela transformação cultural do país. “Eu sou resiliente. Estão querendo me expulsar, então eu reajo a isso então não vou. Vamos tentar lutar aqui dentro com ideias reformadoras e inovadoras”, concluiu Victor Ventin, deixando um chamado ao associativismo e à participação ativa de quem acredita no potencial produtivo do Brasil.