Paulo Cavalcanti recebe o jurista Antônio Luiz Calmon Teixeira para um debate sobre o papel das instituições, os rumos da democracia e a beleza de uma vida dedicada à advocacia e ao amor.
A história das instituições brasileiras, a formação jurídica, o associativismo e o valor das relações humanas conduzem o 98º episódio do podcast É da Nossa Conta!, que foi ao ar nesta segunda-feira, 29 de junho. Em uma conversa profunda e envolvente, Paulo Cavalcanti recebe o jurista Antônio Luiz Calmon Teixeira, advogado com mais de seis décadas de atuação, ex-presidente do Instituto dos Advogados da Bahia e uma das referências da advocacia baiana.
Logo na abertura, Paulo Cavalcanti explica o propósito do programa: “Trazer um pouco de vivência, de experiência, de história para fortalecer o associativismo e a consciência cidadã participativa transformadora.”
Entre a tradição jurídica e o desafio das instituições
Ao recordar sua trajetória, Calmon Teixeira revela que a vocação pelo Direito atravessa gerações. O convidado relembra que seu tataravô foi desembargador no período de Dom Pedro I e protagonizou um episódio que, para ele, simboliza a independência da Justiça. “Ele julgou contra Dom Pedro I. Quando foi comunicar a decisão, ouviu dele: ‘Graças a Deus que ainda há juízes no meu Império’.”
A conversa também percorre a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, a convivência com mestres como Orlando Gomes e a amizade com Edivaldo Brito. Ao falar do professor que considera seu maior mentor, Calmon emociona-se ao reconhecer a gratidão que carrega por toda a vida. “O tratamento que ele dava ao filho dele era exatamente o mesmo que dava a mim. Isso não tem como pagar.”
Outro tema que ocupa boa parte da entrevista é a importância histórica da Associação Comercial da Bahia e o papel das entidades civis na representação da sociedade. Ao refletir sobre a perda de protagonismo do associativismo, Calmon observa que a multiplicação de estruturas de representação enfraqueceu instituições tradicionais. “A Associação Comercial congregava tudo. Depois vieram vários sistemas, isso fragmentou muito.”
Durante o diálogo, Paulo Cavalcanti defende a necessidade de fortalecer a participação cidadã e valorizar a educação como instrumento de desenvolvimento social. Ao recordar a qualidade do ensino público em décadas passadas, afirma que “os grandes colégios públicos formavam professores, juristas e lideranças que ajudaram a construir o país”.
O episódio também aborda os desafios contemporâneos das instituições brasileiras e do sistema de Justiça. Sem abrir mão do respeito ao debate, os dois analisam mudanças ocorridas ao longo das últimas décadas e defendem a importância do fortalecimento da segurança jurídica e da preservação dos princípios constitucionais.
Uma vida guiada pela devoção ao amor e à advocacia
Mas é na parte final da entrevista que o programa ganha contornos profundamente humanos. Ao ser perguntado sobre o grande amor de sua vida, Antônio Luiz Calmon Teixeira responde sem hesitar: “Josenice… Jó… era a minha melhor parte.”
Ele conta que, durante décadas, presenteou a esposa com uma orquídea todo dia 16 de cada mês, tradição que mantém mesmo após sua partida. “Todo dia 16 eu vou ao mausoléu dela e levo uma orquídea. Enquanto eu estiver vivo.”
Ao refletir sobre a perda, deixa uma das frases mais marcantes do episódio: “Ela falecer foi péssimo. Mas o pior teria sido ela nunca ter existido, porque eu nunca teria vivido 61 anos de felicidade.”
Encerrando a conversa, Calmon resume a filosofia que orientou sua carreira e sua vida pessoal. “A advocacia, para mim, não é uma profissão; é uma devoção.” E recorda um ensinamento atribuído a Confúcio que considera definitivo: “Quem faz o que gosta não trabalhou um único dia na vida.”
O episódio completo do podcast É da nossa conta! pode ser conferido a seguir: