Iniciativa desenvolvida pela Fundação Paulo Cavalcanti no Subúrbio Ferroviário de Salvador integrou conferência sobre empreendedorismo, pertencimento e transformação dos territórios, com participação de integrantes e empreendedora do projeto

O Projeto Marsúpio levou sua experiência de fortalecimento de empreendedores do Subúrbio Ferroviário para a Expo Favela Innovation Bahia 2026, realizada nos dias 18 e 19 de setembro, no Shopping Bela Vista, em Salvador.
A experiência do projeto esteve no centro da conferência “Empreender, Pertencer e Transformar: cidadania produtiva e desenvolvimento de territórios”, realizada na sexta-feira (18). Mediado por Cris Santos, diretora executiva da Fundação Paulo Cavalcanti, o encontro reuniu o educador e investidor social Jean Santos; a psicoterapeuta do Marsúpio Alessandra Meiraa; e Andrea Ribeiro, empreendedora de Plataforma e participante do projeto.
Ao abrir o debate, Cris Santos relacionou o desenvolvimento dos territórios à valorização das pessoas que vivem e empreendem neles, da economia criativa e dos produtos que carregam a identidade de suas comunidades.
“A gente precisa de territórios fortes, com a valorização dos empreendedores, da nossa economia criativa. Mas, sobretudo, a gente precisa pertencer”, afirmou.
O Marsúpio parte justamente dessa relação entre pessoa, negócio e território. A iniciativa busca acolher, capacitar e fortalecer pequenos empreendedores, inclusive aqueles que desenvolvem atividades produtivas, mas ainda não reconhecem plenamente sua identidade empreendedora. Formação, inclusão produtiva e desenvolvimento humano caminham juntos ao longo dessa jornada.
Para Paulo Cavalcanti, presidente da Fundação Paulo Cavalcanti, a experiência traduz o conceito de cidadania produtiva.
“A cidadania produtiva começa quando as pessoas reconhecem sua capacidade de gerar renda, fortalecer seus negócios e transformar o lugar onde vivem. O Marsúpio mostra, na prática, a força que existe quando conhecimento, autoestima e empreendedorismo caminham juntos”, afirma.
A pessoa por trás do CNPJ
Uma das características do Marsúpio é olhar para quem está por trás de cada empreendimento. Na Expo Favela, Alessandra Meiraa abordou as barreiras emocionais e de identidade que muitas vezes permanecem mesmo quando conhecimento e oportunidades estão disponíveis.
“Não adianta a gente ter um CNPJ se a gente não tem um CPF saudável. O desenvolvimento humano, o ser humano, vem antes de tudo que a gente faz”, destacou a psicoterapeuta.
Para Alessandra, fortalecer a identidade é também ajudar cada participante a reconhecer que seu lugar de origem não determina até onde pode chegar. Durante a conferência, ela apresentou como exemplo uma sandália produzida por uma das empreendedoras do Marsúpio. A peça, feita no Subúrbio, foi usada para mostrar que valorizar a origem e o pertencimento não significa limitar o mercado de um produto.
Do Subúrbio para novos caminhos
Essa transformação ganhou voz com Andrea Ribeiro, moradora de Plataforma e participante do Marsúpio. Empreendedora do segmento de alimentação, ela começou a buscar formação profissional em 2019, inicialmente na confeitaria, e posteriormente ampliou seus conhecimentos em doces, salgados, tortas e panificação.
Andrea chegou ao Marsúpio por meio da União de Mulheres Empreendedoras do Subúrbio (UMES). Na Expo Favela, definiu sua entrada no projeto como um “divisor de águas”.
“Tiveram um olhar para nós, mulheres do Subúrbio. […] Levo o meu trabalho muito a sério, me dedico bastante, agrego valor ao meu trabalho”, relatou.
A presença de uma participante do projeto no palco da Expo Favela deu concretude ao debate: mais do que falar sobre empreendedorismo nos territórios, Andrea apresentou a experiência de quem vem construindo o próprio negócio a partir deles.
Pertencer para transformar
Durante a conferência, Jean Santos ampliou a discussão ao relacionar empreendedorismo, ancestralidade e pertencimento. Em sua reflexão, destacou a importância de olhar para os territórios periféricos não somente a partir das vulnerabilidades, mas também dos sonhos, conhecimentos, capacidades e iniciativas que nascem dentro deles.
A discussão encontrou sintonia com a própria proposta da Expo Favela, que conecta empreendedores das periferias, startups, investidores, empresas e instituições e busca ampliar a visibilidade da produção econômica e criativa desses territórios.
Para Márcio Lima, presidente estadual da CUFA Bahia e vice-presidente da CUFA Brasil, é preciso superar a imagem exclusivamente negativa associada às favelas e reconhecer a potência econômica existente nesses espaços.
A participação na Expo Favela colocou em evidência uma ideia que acompanha o Marsúpio desde sua concepção: fortalecer um negócio começa por fortalecer a pessoa que o conduz. E, quando empreendedores reconhecem seu valor, sua identidade e sua capacidade produtiva, esse movimento pode alcançar também as comunidades onde vivem e trabalham.
O Projeto Marsúpio é realizado pela Fundação Paulo Cavalcanti, com apoio da Associação Comercial da Bahia, patrocínio da BF Serviços Ambientais, Umbrella e Ecocloro e fomento do Ministério da Cultura e Governo Federal, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).