Ter o próprio negócio é hoje o segundo maior sonho dos brasileiros. Segundo o relatório 2025 do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), principal pesquisa internacional sobre empreendedorismo, 39,7% da população brasileira entre 18 e 64 anos declarou ter esse objetivo, ficando atrás apenas do sonho da casa própria.
Mas o que esse dado nos revela sobre o país que queremos construir?
Ele revela uma sociedade que deseja mais autonomia do que dependência. Revela milhões de brasileiros que não querem apenas ocupar postos de trabalho, mas criar oportunidades para si mesmos, para suas famílias e para suas comunidades. Revela também uma população que enxerga no empreendedorismo uma possibilidade concreta de geração de renda, mobilidade social e construção de um futuro mais digno.
Em um país historicamente marcado por desigualdades sociais e econômicas, o sonho do negócio próprio representa muito mais do que abrir uma empresa. Ele representa liberdade para decidir os rumos da própria vida, para transformar talentos em renda e para construir caminhos que muitas vezes não foram oferecidos pelas estruturas tradicionais do mercado de trabalho.
Mas transformar esse sonho em realidade exige muito mais do que coragem e disposição. É necessário acesso a conhecimento, capacitação, planejamento, crédito, redes de apoio e ambientes favoráveis ao desenvolvimento dos pequenos negócios.
Nesse contexto, ganha destaque o trabalho da Unidade de Educação Empreendedora do Sebrae, cujas metodologias e impactos tive a oportunidade de conhecer de perto em projetos desenvolvidos nas escolas públicas da Bahia. A educação empreendedora contribui para o desenvolvimento de competências como liderança, criatividade, inovação, resolução de problemas, planejamento e tomada de decisões, habilidades essenciais para quem deseja empreender ou construir uma trajetória profissional mais autônoma.
Os dados do próprio GEM apontam uma mudança importante no perfil dos empreendedores brasileiros. A pesquisa mostra uma redução do empreendedorismo motivado exclusivamente pela necessidade e um crescimento das iniciativas impulsionadas pela identificação de oportunidades, pela busca de realização pessoal e pelo desejo de gerar impacto positivo.
Essa transformação também pode ser observada em iniciativas desenvolvidas por Organizações da Sociedade Civil, como o Projeto Marsúpio, da Fundação Paulo Cavalcanti, e as ações promovidas pela Central Única das Favelas (CUFA) demonstram como a inclusão produtiva pode ampliar oportunidades, fortalecer capacidades empreendedoras e impulsionar o desenvolvimento econômico em territórios historicamente marcados pela exclusão social. São experiências que mostram que o empreendedorismo, quando acompanhado de formação, apoio e fortalecimento de redes, pode se tornar um importante instrumento de cidadania econômica.
Entretanto, é importante reconhecer que nem todos partem do mesmo ponto quando decidem empreender. Homens e mulheres enfrentam desafios distintos, muitas vezes agravados por fatores como renda, escolaridade, território onde vivem e acesso a oportunidades. Para milhões de brasileiros, especialmente aqueles que atuam na informalidade, o sonho do negócio próprio convive diariamente com dificuldades de acesso ao crédito, à capacitação, à tecnologia, aos mercados consumidores e às redes de apoio necessárias para o crescimento sustentável dos seus empreendimentos.
No caso das mulheres, esses desafios costumam ser ampliados pela dupla jornada de trabalho, pelas responsabilidades relacionadas ao cuidado da família e pelas desigualdades ainda presentes no ambiente econômico. Ao mesmo tempo, o empreendedorismo tem representado para muitas delas uma importante ferramenta de liberdade financeira, autonomia econômica e fortalecimento da capacidade de decidir sobre o próprio futuro.
Outro aspecto que merece atenção é a realidade dos milhões de empreendedores informais espalhados pelo país. Muitos já empreendem diariamente, geram renda, movimentam a economia e sustentam suas famílias, mas ainda enfrentam dificuldades para equilibrar a vida do negócio e capacitações. A informalidade revela a existência de barreiras que impedem muitos brasileiros de transformar seus negócios em empreendimentos mais estruturados, competitivos e sustentáveis.
Por isso, quando falamos sobre o sonho do negócio próprio, estamos falando também sobre inclusão produtiva, qualificação, acesso a oportunidades e fortalecimento da cidadania econômica. Estamos falando sobre criar condições para que mais pessoas possam prosperar por meio do seu trabalho, da sua criatividade e da sua capacidade de empreender.
O Brasil já demonstrou que possui um povo com disposição para criar, inovar e empreender. O desafio agora é construir as condições para que esse potencial se transforme em desenvolvimento econômico, geração de renda e redução das desigualdades.
Se o sonho da casa própria representa segurança, o sonho do negócio próprio representa autonomia. O fato de ambos ocuparem as primeiras posições entre os desejos dos brasileiros nos revela que queremos um país onde mais pessoas tenham condições reais de construir o próprio futuro.
Mas essa transformação não acontecerá apenas pela iniciativa individual. Ela exige uma responsabilidade coletiva. Exige que governos, instituições de ensino, empresas, organizações da sociedade civil e entidades de apoio ao empreendedorismo atuem de forma articulada para criar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento dos pequenos negócios.
Exige também que nós, cidadãos, exerçamos o nosso papel de cobrar dos representantes eleitos políticas públicas efetivas para o fomento ao empreendedorismo, à inclusão produtiva, à educação empreendedora, à formalização dos negócios e à ampliação do acesso ao crédito. Mais do que anunciar programas, é preciso garantir que eles cheguem a quem mais precisa e produzam resultados concretos na vida das pessoas.
Afinal, quando quase quatro em cada dez brasileiros sonham em ter o próprio negócio, não estamos diante de uma aspiração isolada. Estamos diante de um projeto de país. Um projeto que valoriza o trabalho, a iniciativa, a criatividade e a capacidade de transformar desafios em oportunidades.
Porque se sonhamos tão alto, é porque já demonstramos, todos os dias, que temos um povo à altura dos seus sonhos.
Artigo assinado por:
Cris Santos
Diretora Executiva da Fundação Paulo Cavalcanti