O episódio do podcast É da nossa conta!, exibido na segunda-feira (30), reuniu o apresentador Paulo Cavalcanti e o advogado Zilan Costa e Silva, vice-presidente da Associação Comercial da Bahia (ACB) e conselheiro da Fundação Paulo Cavalcanti, em uma conversa direta sobre geopolítica, economia e o papel da sociedade na democracia.
Logo no início, Zilan resume sua trajetória com ironia e realismo: “Eu sou apenas um baiano latino-americano com alguns amigos importantes e bons amigos, e sem dinheiro no bolso. O resto é só luta.”
A partir daí, o debate mergulha nos efeitos do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Segundo ele, trata-se de uma guerra com impactos muito além do campo militar: “Essa guerra tem um reflexo muito mais abrangente do que a gente tá prevendo […] envolve o ataque para a área política, econômica, social e midiática.”
Paulo amplia o cenário e chama atenção para a multiplicidade de conflitos no mundo: “Nós estamos hoje enfrentando uma quantidade de conflitos muito grande pelo mundo inteiro […] conflito, na realidade, é o que não falta.”
Entre os principais riscos, Zilan aponta a instabilidade no fornecimento global de petróleo, responsável por cerca de 20% do fluxo mundial, e seus desdobramentos diretos no Brasil, que vão do aumento do diesel à pressão sobre a logística e a produção agrícola. “Não é só o transporte público não. É toda a massa logística do Brasil”, afirma.
Na prática, Paulo traz o impacto imediato para o cotidiano: “Navios que vinham para o Brasil […] foram desviados para outro país que pagou mais pelo petróleo.” E alerta para o efeito em cadeia: “Automaticamente é pressionado o transporte público.”
O episódio também aborda a dependência estrutural do país em relação ao petróleo e aos fertilizantes, além da vulnerabilidade diante de crises internacionais. Para Zilan, o cenário exige atenção e preparo: “Essa guerra vai comprometer não só o fornecimento de combustíveis […] como também vai atrapalhar a nossa agricultura.”
Apesar do tom de alerta, Paulo provoca uma leitura alternativa e pragmática: “Será que não é oportunidade de, enquanto eles estão brigando, a gente aproveitar para crescer?”
Grupos de pressão e o vazio da participação
O segundo eixo do episódio desloca o foco da guerra para dentro do Brasil. A discussão gira em torno do conceito de “grupos de pressão”, que são organizações da sociedade civil que atuam para influenciar decisões públicas.
Zilan explica que esse mecanismo é parte essencial da democracia: “Entre o indivíduo isolado e o empresário isolado […] ele precisa participar de um associativismo […] para pleitear, para fazer o lobby, para mostrar o que ele quer.”
Paulo reforça o papel dessas estruturas: “Grupo de pressão é um instrumento da democracia […] uma instituição criada para provocar inclusive as instituições formais do Estado.”
Ambos concordam que o problema brasileiro não está nas instituições em si, mas no afastamento da sociedade. Para Zilan, houve uma captura natural dessas estruturas ao longo do tempo, agravada pela baixa participação: “Não é destruir a instituição, é participar mais para garantir a escolha.”
Paulo vai direto ao ponto: “A gente não fica achando, não. A gente, no Brasil hoje, está vivenciando isso.”
Povo, responsabilidade e maturidade democrática
Um dos momentos mais diretos do episódio é o confronto de visões sobre o papel do povo brasileiro.
Paulo afirma: “O povo brasileiro, na sua maioria, é infantil […] precisa ser preparado, informado, educado.”
Zilan rebate: “Eu acredito no povo brasileiro […] o povo é sábio.”
O embate continua sem concessão. Paulo insiste: “O povo brasileiro nem tem maturidade hoje […] para exigir eficiência nos serviços públicos pelos quais ele paga imposto.”
Zilan responde deslocando o foco para a responsabilidade coletiva: “As pessoas querem transferir a sua responsabilidade para outro. Quem foi que elegeu? Foi o brasileiro.”
Conhecimento como ponto de partida
No encerramento, a mensagem converge para um ponto comum: participação exige preparo.
Zilan defende o estudo como base: “A gente precisa melhorar essa percepção da realidade […] através do conhecimento e do debate.”
Paulo traduz em provocação direta: “Através da consciência de cidadania é que você desperta que é importante você participar. Participando, você transforma.”
O episódio termina com um convite à reflexão: o Brasil não sofre apenas das crises do mundo, mas da ausência de si mesmo dentro das próprias decisões.