Empreendedorismo raiz, informalidade e cidadania no centro do debate do podcast É da nossa conta!
No episódio desta semana, Paulo Cavalcanti conversa com o consultor do Sebrae Anderson Teixeira sobre periferia, autoestima produtiva e caminhos reais de transformação econômica
Exibido nesta segunda-feira, 2 de fevereiro, o episódio do É da nossa conta! reuniu o presidente da Fundação Paulo Cavalcanti, Paulo Cavalcanti, e o economista e consultor do Sebrae, Anderson dos Santos Teixeira, em uma conversa direta sobre empreendedorismo na periferia, informalidade, cidadania e políticas públicas voltadas para quem produz à margem do sistema formal.
Morador do Beiru/Tancredo Neves, Anderson se apresentou a partir de sua própria trajetória. “Sou morador do bairro do Beiru, exatamente com muito orgulho, sou nascido e criado lá”, afirmou. Economista formado pela Universidade Federal da Bahia, ele atua no Sebrae na área de pesquisas, com foco em afroempreendedorismo, afroturismo e informalidade.
A relação entre Paulo e Anderson já passou por ambientes acadêmico e institucional. Anderson relembrou o primeiro contato: “Eu trabalho no Sebrae e o senhor foi conselheiro nosso lá. Ouvia seu nome, mas não sabia de fato quem o senhor era. Tive a oportunidade de ministrar uma palestra sobre economia informal, encontrei o senhor lá e aí a gente criou esse vínculo de amizade”.
Beiru, CEIFAR e identidade periférica
Um dos momentos centrais do episódio foi a discussão sobre o Beiru/Tancredo Neves e o papel do CEIFAR (Centro de Integração Familiar), organização social que atua no território. Anderson destacou a importância do espaço na formação de lideranças locais, citando o educador Jean Santos. “Jean foi o primeiro aluno do Ceifar. Quando eu entrei, ele já estava dando aula de violão. O Ceifar é uma instituição sem fins lucrativos, hoje tem centro de saúde, é multidisciplinar.”
Ao tratar da identidade da periferia, Anderson foi direto: “Eu, Anderson, particularmente me chamo de favela. Não acho pejorativo, sou favelado, mas a favela é plural”. A fala dialogou com a provocação de Paulo Cavalcanti, que lembrou o debate sobre os termos usados para se referir a esses territórios.
Empresário raiz e crítica ao modelo atual
Paulo Cavalcanti defendeu a necessidade de reconhecer e acolher o chamado “empresário raiz”, aquele que empreende fora da formalidade por necessidade e sobrevivência. “O Sebrae e a Fundação Getúlio Vargas chamam de mercado subterrâneo ou informal, mas acho que o nome apropriado é empresário raiz, ou seja, que tem o direito de brotar e frutificar”, afirmou.
Ele também fez críticas ao modelo tradicional de apoio ao empreendedorismo. “Fiz algumas críticas construtivas ao Sebrae porque ele é muito focado em pegar a empresa já feita, o MEI, o micro e pequeno empresário, mas não tem uma preocupação de buscar formar esse na essência.”
Para Paulo, a discussão vai além da economia. “A classe produtiva precisa entender que a informalidade, a escola, o posto de saúde e a segurança pública são da nossa conta. A autoestima cidadã passa pela promoção da classe produtiva.”
Anderson concordou ao defender uma nova leitura da informalidade. “A informalidade tem que ser olhada como algo positivo, pois gera renda que movimenta as comunidades. O informal muitas vezes não se enxerga como empreendedor, ele acha que está fazendo um ‘bico’.”
Projeto Marsúpio e soluções práticas
O episódio também abordou o Projeto Marsúpio, idealizado por Paulo Cavalcanti. “O Marsúpio é o canguru. A gente acolhe o negócio da pessoa e acompanha dando assessoria. Não é só dar o peixe ou a vara, é despertar a autoestima dele para ele se entender como empresário que sustenta esse país”, explicou.
Segundo Paulo, o projeto atua diretamente na base da informalidade. “No Marsúpio, a gente formaliza a pessoa como MEI, paga o imposto (DAS) dela durante um ano, dá curso de alfabetização digital, financeiro e atendimento virtual por voz com IA. O consultor vai na casa da pessoa.”
Anderson avaliou positivamente a proposta. “O Marsúpio parece ser um pacote completo que entrega várias coisas de uma vez. E pagar um ano do MEI é excelente, porque o boleto pesa para quem fatura nem R$ 100 ou R$ 200 por mês.”
Juventude, novos modelos e cidadania
A conversa avançou para o comportamento da nova geração. Anderson observou mudanças claras. “Vejo que o jovem dessa geração de 2000/2010 está com outra mentalidade. Eles querem mais flexibilidade de tempo, viajar, não querem necessariamente o modelo CLT.”
Paulo reforçou que, muitas vezes, já existe planejamento e estratégia, mesmo sem reconhecimento formal. “Esse cara que planejou trabalhar no Natal e Réveillon enquanto os outros curtiam, para ganhar mais, ele fez planejamento e estratégia. Ele é um empresário nato, só falta se reconhecer como tal.”
No encerramento, a cidadania voltou ao centro do debate. Anderson deixou um recado direto: “Minha mensagem para o povo da periferia: estudem e se qualifiquem. O conhecimento hoje está pulsante. Busquem a autoestima produtiva.”
Paulo concluiu reforçando a responsabilidade coletiva. “É importante ter consciência de cidadania, conhecer a Constituição e saber cobrar eficiência nos serviços públicos. Nada é de graça. Somos responsáveis por transformar o ambiente do nosso país.”